Mudar de Vida – a minha experiência

Saí há algumas semanas da empresa onde trabalhei 19 anos. Quando acabei o curso na Universidade comecei logo a trabalhar nesta empresa. Aprendi imenso. A menina tímida e com pouca experiência de vida teve de perder o medo e começar a falar com clientes extremamente exigentes, a lidar com queixas, a comunicar problemas. No mercado de luxo há uma exigência maior, procura-se a excelência de serviço. Foi um desafio. Tinha orgulho no meu trabalho e em ser boa profissional. O salário era muito acima da média e isso permitiu-me viajar bastante, comprar a minha primeira casa, o meu primeiro carro e viver muitas experiências novas. Fiz amigos para a vida. Vivemos juntos bons e maus momentos da empresa. Eramos muito novos quando começamos, acompanhamos namoros, casamentos, nascimento dos filhos, divórcios.

Dez anos depois tive o meu primeiro filho. Quando regressei, após alguns meses, fui colocada noutro departamento porque não podia trabalhar por turnos. Na altura pareceu-me bem pois o bebé e os turnos não eram compatíveis. E foi aqui que começou um período longo e difícil. A falta de formação, o mau ambiente, as humilhações constantes. Não acontecia só comigo. Fui testemunha de situações muito injustas, muito desumanas. Vivi assim durante oito anos! Viver desta forma teve repercussões na minha saúde, estava sempre doente. Fui muitas vezes ao fundo do poço e voltei ao cimo. “Não posso mudar!” dizia, onde iria arranjar um emprego com o mesmo salário em Portugal? Com os encargos que já tinha, como é que ia ser??? Fui aprendendo a fazer o trabalho e a defender-me. Aprendi a nadar num mar revolto e cheio de correntes.

No final de 2015 engravidei e foi uma gravidez de alto risco desde o inicio o que me permitiu ficar em casa um ano e meio. Durante este tempo consegui cumprir um sonho: tirar o curso de consultoria de imagem, apenas por satisfação pessoal. Já a meio do curso surgiu-me a ideia e a inspiração para criar a Curvy Girl. Era isso que eu queria fazer mas tive de voltar ao meu trabalho após esse tempo em casa. Dia 20 de Fevereiro de 2017 lembro-me de estar a estacionar o carro em frente à empresa e as lágrimas caiam-me pelo rosto. Queria tanto dedicar-me ao meu projeto mas o rendimento do meu trabalho era certo. Não queria trocar o certo pelo incerto. Agora tinha dois filhos para sustentar. E assim continuei e sempre com o meu corpo a dar sinais de que algo estava errado. O ambiente estava pior, muitos dos meus amigos tinham saído da empresa. Ultrapassei o meu limite tantas e tantas vezes até que no inicio deste ano tive a minha primeira perda. Perdi o meu avô que foi na verdade o meu pai, que me criou, que me deu tanto e me ensinou sobre o caráter e a honestidade. Andei mais umas semanas assim dormente. Pensava “eu aguento”. Dia 23 de Janeiro tive de ir às urgências, com falta de ar e arritmia. Achei que estava a ter um ataque cardíaco. A medica mandou-me descansar e teve alguma dificuldade em fazer-me acreditar que eu estava com um ataque de pânico. Cheguei ao meu limite nesse dia, já não dava mais e ai tive uma única certeza “Eu não vou voltar nunca mais”. E assim foi. Procurei aconselhamento e entrei num processo nada fácil até à minha saída. Alguém me mostrou que podia lutar pelos meus direitos e que não tinha de viver assim até à reforma.

Muitos acham-me corajosa por deixar para trás 19 anos de trabalho e um bom salário. Não tenho família com posses, o meu T1 está alugado para pagar a divida ao banco e vivo numa casa alugada. O salário do meu marido não dá para nos sustentar aos quatro.

Muitos acham-me louca “Com esse salário eu aguentava tudo!”.

Corajosa ou louca dei um passo na vida que nunca pensei que viesse a dar. Há momentos em que sinto que tudo vai dar certo. Há certas pessoas e situações que se cruzam no meu caminho e me fazem acreditar que fiz a escolha certa. Outras vezes sinto um friozinho no estomago e penso “E se algo corre mal? E os meu filhos?”. Mas não estou arrependida, só assustada por vezes.

Quero muito seguir a minha vocação. Fico tão feliz quando uma cliente me diz que há muito tempo que não cuidava de si, que há tanto tempo que não se sentia tão bem como agora. Ou os abraços que recebo quando faço voluntariado e ajudo mulheres a mudarem a sua imagem para que possam conseguir um emprego.

Pensei muito antes de escrever este artigo.  Acabei de expor muitas das minhas fragilidades mas se a minha história puder ser útil a alguém já valeu a pena.

 

 

 

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.