Plus Size Life – Nathaly Soares, testemunho na primeira pessoa

Já vos falei da minha paixão por Cabo Verde e já puderam acompanhar um pouco da minha ultima viagem pelo instagram. Já há algum tempo que tomei conhecimento do projeto da Nathaly Soares – Plus Size Life. A Nathaly vive na cidade da Praia em Santiago e tem este projeto direcionado a mulheres e homens plus size,  também para quem tenha apenas algumas curvas a mais, aqueles casos in between em que não somos considerados nem gordos nem magros, simplesmente não nos encaixamos nos padrões impostos pela sociedade a ainda para quem seja magro mas também tenha problemas em aceitar o seu corpo. Deste projeto  constam as mais diversas atividades e iniciativas como a eleição da diva e “divo” do mês, desfiles de moda com os membros do grupo, palestras em escolas sobre bullying, palestras sobre a aceitação do corpo e até um projeto contra a violência de gênero. Todas estas atividades visam trazer a aceitação do corpo, a descoberta do amor próprio e também a mudança de mentalidades na aceitação de que todos somos diferentes e temos o nosso lugar e o direito a sermos respeitados.

A Nathaly aceitou o meu gentil pedido de partilhar a sua história e percurso de aceitação para mostrar que não é fácil, mas é possível e que por vezes é um processo longo e doloroso mas com desfecho feliz. Há que continua a lutar todos os dias para sermos a melhor versão de nós próprios. Aqui vos deixo o seu testemunho:

“Olá Eu sou a Nathaly, 32 anos, de Cabo Verde e sempre fui gordinha, desde criança. Durante muito tempo , isso não foi um problema, mas quis a vida que num dado momento a minha forma física se tornasse na minha maior fraqueza e hoje um dos meus maiores pontos fortes. Durante a infância foi mais fácil gerir, era sempre a mais gordinha, mas era aquela gorda “fofa”. As coisas complicaram-se no ensino secundário numa altura em que comecei a sentir um certo complexo de mim mesma, onde só usava roupas largas e nada que mostrasse o meu braço, pernas e etc. Saias e vestidos não faziam parte do meu guarda roupa. No secundário adoeci, tive um tumor e tive de ser operada, no pré – operatório descobri que pesava 119 kg (tinha 14 anos), mas nessa altura o peso era o último dos meus problemas… Fiquei chocada, mas nem liguei. No final do secundário mudei-me para Portugal, para frequentar a universidade e fui viver para o Porto. Inicialmente o mudar de ares fez toda a diferença, e me vi com outros olhos, mas como sempre digo , sou uma gorda atrevida. Aquela que gosta de se vestir bem, estar “toda trabalhada na elegância”! Mas nem tudo era um mar de rosas, tinha dois grandes problemas na altura: as saudades de casa (Cabo Verde) e roupas para vestir. Procurava incansavelmente lojas que tinham roupas do meu tamanho(na época 58). As saudades de casa foram compensadas pela comida, comia muito e comia mal. O equilíbrio daquilo que comia simplesmente não existia.

Com 21 anos pesava 172 kg e vestia o número 64, roupas do meu gosto….. só nos EUA, quando houvesse! As roupas teriam de sair dos Estados Unidos, depois ir para Cabo Verde e por fim seguirem para Portugal. Passei a ser rotulada,não me sentia enquadrada, e isso só serviu para criar um sentimento de tristeza dentro de mim, apesar de sempre carregar um sorriso na cara. Com o tempo, a tristeza , a falta de amor próprio tomaram lugar, neutralizaram o meu “SER” . Deixei de ser uma pessoa que vive e passei a sobreviver apenas. Deixei as rédeas da minha vida ser cuidada pela opinião alheia, e isso teve impactos negativos em todos os aspectos da minha vida, o pensamento de “sou só mais uma gorda inútil” é que ganhou lugar de forma crescente. Aos 22 anos cheguei à minha versão de fundo do poço, um lugar que hoje conheço, e trabalho, todos os dias, com todas as minhas forças para não mais voltar. Aos 22 anos, estive prestes a saltar de uma ponte, pois não estava mais disponível para continuar a (sobre)viver. Mas o destino assim não quis, e entendi ( por motivos vários) que eu sou muito mais que apenas um corpo, uma gorda, um rótulo!!! Frequentei grupos de ajuda, psicólogos, pesquisei, fiz leituras. O conhecimento e o amor foram ferramentas para a minha nova fase.

Aos 23 tomei as rédeas da minha vida, e resolvi me “curar”, começando pela alma. E foi aí que comecei a caminhada da busca da MINHA felicidade e da construção do MEU amor próprio. Aprendi da forma dolorosa, que se eu não me amar, ninguém o vai fazer. Apesar de me considerar a versão humana do bicho preguiça, o ginásio me fez muito bem, e teve um papel importante na busca da harmonia entre o meu EU interior e o meu corpo. Me foquei durante muito tempo apenas em mim, me curar, me redescobrir, me cuidar. Me sentia bem, comigo mesma e estava disposta a melhorar a cada dia. Num belo dia, uma mãe me pediu para falar com a filha, dizia ela que a filha me admirava (não entendi o porquê), mas após tanta insistência, resolvi falar com ela. Descobri que ela admirava a minha confiança (aquela que transmitia) e o saber andar com saltos altos (de 15 cm ou mais com confiança). Essa conversa foi longa e fez cair a ficha, afinal a minha nova forma de encarar a vida, podia fazer a diferença na vida de outra pessoa. Passamos a conversar, trocar experiências e dai surgiu a ideia de partilhar as minhas vivências e desafios. Gosto de escrever, e criei uma página Plus Size Life, nunca imaginaria do impacto e do feedback que iria ter , rapidamente aquilo que era um hobbie se tornou numa missão, espalhar a mensagem. O número de leitores foi crescendo, pelo que resolvi tornar esse hobbie num projeto dedicado à construção do amor próprio das mulheres plus size. Mas a vida, deu-me mais um achega , e vi que os homens também sofrem, vi que os magros também sofrem, vi que aquela que a sociedade considera como tendo um “corpo perfeito”, também sofre! Cada um da sua forma e pelos seus motivos. Deixei de viver para mim, e passei também a observar os outros. Hoje o meu projeto já não é só meu, ele é NOSSO, de todos que de alguma forma sentem que a nossa missão de partilhar a luta pela construção do amor próprio, lhes é útil e ajuda. É daqueles que travaram as suas lutas e hoje querem ajudar ou querem connosco lutar em busca de dias mais ensolarados.

Não vou dizer que sou perfeita, ou que atingi o meu auge, o projeto me ensinou que preciso “CULTIVAR O AMOR PRÓPRIO”, plantar, regar, amar e cuidar, para que nunca mais volte , para o fundo do poço que um dia fui no passado. É um processo de contínuo. Foi assim, que o meu problema com a balança, a minha falta de amor próprio , se tornou no meu orgulho, pois a luta para me reencontrar, me deu forças, não só para me encontrar, como para apoiar aqueles que se perderam pelo caminho. Por isso digo, se ame, se cuide, se respeite acima de tudo, só assim poderemos viver, ser felizes e apoiar os outros.

Como sempre digo Beijos+ da Vossa plus Nathaly”

Obrigada Natahly pelo testemunho, pela partilha generosa dos bons e maus momentos e por seres, como já te disse, uma fonte de inspiração!

 

     

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